A realidade fotográfica
Escrito por Eliane Terrataca | Postado em Artigos | No dia 25-09-2009
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Antes de tudo, quero avisar que não falarei sobre manipulação digital. Você já parou para pensar que a fotografia não é um pedaço da realidade? Muita gente ainda acredita nisso, mas basta refletir a respeito de alguns aspectos para descobrir que esse pensamento é errado. Afinal, é mais do que claro que, a fotografia é apenas um pedaço de uma interpretação da realidade.
Resolvi discutir isso por aqui porque vi uma pessoa defender fervorosamente que a fotografia é um documento do real. É normal cometer esse engano, principalmente num momento em que todos estão muito acostumados em ver as imagens e quase nunca refletem a respeito delas. Esse é um assunto que posso explicar com tranquilidade, já que foi um dos pontos que estudei para o meu trabalho de conclusão da faculdade. Então vamos lá…
Para começar é necessário ter em mente que a fotografia possui duas realidades, que são conhecidas como a primeira e a segunda realidade fotográfica. Para ser breve, a primeira realidade envolve o próprio passado, o exato tempo/espaço em que a imagem foi capturada; já a segunda é aquilo que o fotógrafo constrói nos limites bidimensionais da imagem. Por isso a fotografia não é um documento do real, mas sim uma referência de um passado inacessível. A fotografia é mágica porque aproxima contextos, mas está sempre influenciada pelo fotógrafo – tanto em aspectos técnicos (equipamentos disponíveis e conhecimentos adquiridos) quanto pessoais e sócio-culturais.
Pensando nisso, podemos concluir que não existe representação pura da realidade, muito menos a fotografia. O fotógrafo sempre recorta a realidade da maneira que melhor entender: o enquadramento que usa, a quantidade de luz que deixa entrar, os assuntos que decide focar, tudo isso registra uma interpretação do real. Isso é definido como um “registro expressivo da aparência” e não da realidade histórica, pelo maior estudioso da fotografia no Brasil, Boris Kossoy. Tem um trecho de um livro que li que explica bem isso:
“Pode existir uma distância infinita entre a realidade palpável à frente da objetiva e a realidade criada ou evocada na fotografia. Tanto é possível chegar ao belo partindo do banal, feio ou, até mesmo, repugnante, como a beleza grandiosa de um pôr-do-sol pode levar a apenas um resultado medíocre” (Cláudio Kubrusly, em O que é a fotografia?).
Tem um filme bem legal, e antigo, que mostra como essa confusão das realidades (tomar a foto como prova do real) pode prejudicar uma pessoa. O filme Blow-Up (1966) representa a vida de um fotógrafo que não consegue se comunicar, não consegue se relacionar com pessoas, porque deixou de separar o real do imaginário. Isso tem acontecido bastante com o ser humano… Ao invés de aproveitar a realidade para criar imagens, estamos criando imagens para depois tentar encaixá-las em uma possível realidade que, na verdade, fomos nós mesmos que criamos. Ai que confusão! Heheh… Mas se você assistir ao filme entederá melhor o que tentei dizer aqui. No Youtube tem alguns trechos do filme, mas vou colocar o trailer dar uma ideia.
Depois de tudo isso existe ainda uma outra realidade, que extrapola a fotografia, a realidade que o observador constrói para si ao ver uma imagem. Essa também depende muito de aspectos pessoais, sociais, culturais etc. Talvez, saber que a fotografia possui duas realidades não te ajude a capturar fotos melhores, mas, com certeza, irá te ajudar a interpretar melhor as fotografias que vê por aí.






Opa! Olha meu TCC aí!!!
Eliane, um dos pilares do meu TCC está justamente em considerar que a fotografia não corresponde à realidade, por N razões. Entre elas, eu coloco a transformação de um objeto tridimensional em uma imagem bidimensional, os diferentes resultados com o uso de diferentes equipamentos, e principalmente a bagagem e o conhecimento do fotógrafo.
Essa discussão leva inclusive a outra, já no campo da semiótica. O Arlindo Machado prefere descaracterizar a fotografia como mero índice da realidade, e colocá-la como símbolo, com todos os fatores que colaboram para criar diferentes resultados para um mesmo objeto.
Obrigada por fortalecer a discussão!
Adorei essa ideia de fotografia como símbolo! =)
Temos que divulgar essa informação de que a fotografia não é realidade, já vi várias enquetes por aí confirmando que as pessoas acreditam que seja. Qdo descobrirem que não é bem assim, irão começar a “pensar a fotografia” e não só fotografar.
[...] This post was mentioned on Twitter by miguelnetto and Eliane Terrataca. Eliane Terrataca said: Realidade fotográfica http://bit.ly/eGw1N [...]
Penso q a fotografia é na maioria das vezes apenas uma “associação” da realidade… ehehe.
Ou seja, o reflexo alterado da realidade porém com a mesma comunicação visual, a mesma idéia básica… Adorei sua matéria. Abç.
Resumiu bem o que eu tentei explicar com meu post gigantinho!… Heheh… Obrigada pela visita e volte sempre para conferir as novidades! =)
Beijoca