Mensagem – por Fernando Pessoa
Escrito por Eliane Terrataca | Postado em Artigos | No dia 05-01-2010
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Passeando pelo site Domínio Público encontrei um texto que gostei muito. Trata-se de uma reflexão que Fernando Pessoa fez a respeito do processo de interpretação que as pessoas sofrem ao observar um símbolo. O texto é uma introdução de uma série de poesias que ele escreveu sobre Portugal.
O que me chamou atenção foi a simplicidade com que ele explica uma parte de uma teoria sígnica (não estou falando de astrologia!) que é ensinada, às vezes, de maneira tão complexa. Decidi compartilhar com vocês porque acho importante todo fotógrafo ter um pensamento crítico sobre a imagem. A fotografia também é um símbolo, uma coleção de signos, que é capaz de proporcionar infinitas interpretações dentro das tantas cabeças pensantes a observá-la. Leia, entenda o que eu quero dizer e aproveite para refletir…

O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para eles.
A primeira é a simpatia; não direi a primeira em tempo, mas a primeira conforme vou citando, e cito por graus de simplicidade. Tem o intérprete que sentir simpatia pelo símbolo que se propõe interpretar.
A segunda é a intuição. A simpatia pode auxiliá-la, se ela já existe, porém não criá-la. Por intuição se entende aquela espécie de entendimento com que se sente o que está além do símbolo, sem que se veja.
A terceira é a inteligência. A inteligência analisa, decompõe, reconstrói noutro nível o símbolo; tem, porém, que fazê-lo depois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia no exame dos símbolos, é o de relacionar no alto o que está de acordo com a relação que está embaixo. Não poderá fazer isto se a simpatia não tiver lembrado essa relação, se a intuição a não tiver estabelecido. Então a inteligência, de discursiva que naturalmente é, se tornará analógica, e o símbolo poderá ser interpretado.
A quarta é a compreensão, entendendo por esta palavra o conhecimento de outras matérias, que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionado com vários outros símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia ter dito, pois a erudição é uma soma; nem direi cultura, pois a cultura é uma síntese; e a compreensão é uma vida. Assim certos símbolos não podem ser bem entendidos se não houver antes, ou no mesmo tempo, o entendimento de símbolos diferentes.
A quinta é a menos definível. Direi talvez, falando a uns, que é a graça, falando a outros, que é a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros, que é o Conhecimento e a Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma destas coisas, que são a mesma da maneira como as entendem aqueles que delas usam, falando ou escrevendo.




