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A realidade fotográfica

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Conteúdo atualizado há 10 anos

Antes de tudo, quero avisar que não falarei sobre manipulação digital. Você já parou para pensar que a fotografia não é um pedaço da realidade? Muita gente ainda acredita nisso, mas basta refletir a respeito de alguns aspectos para descobrir que esse pensamento é errado. Afinal, é mais do que claro que, a fotografia é apenas um pedaço de uma interpretação da realidade.

Resolvi discutir isso por aqui porque encontrei uma pessoa defender fervorosamente que a fotografia é um documento do real. É normal cometer esse engano, principalmente num momento em que todos estão muito acostumados em ver as imagens e quase nunca param para pensar a respeito delas. Esse é um assunto que posso explicar com tranquilidade, já que foi um dos pontos que estudei para o meu trabalho de conclusão da faculdade. Então vamos lá…

realidade fotografica
por ~jjjohn~, no Flickr

Para começar é necessário ter em mente que a fotografia possui duas realidades, que são conhecidas como a primeira e a segunda realidade fotográfica. Para ser breve, a primeira realidade envolve o próprio passado, o exato tempo/espaço em que a imagem foi capturada; já a segunda é aquilo que o fotógrafo constrói nos limites bidimensionais da imagem. Por isso a fotografia não é um documento do real, mas sim uma referência de um passado inacessível. A fotografia é mágica porque aproxima contextos, mas está sempre influenciada pelo fotógrafo – tanto em aspectos técnicos (equipamentos disponíveis e conhecimentos adquiridos) quanto pessoais e sócio-culturais.

Pensando nisso, podemos concluir que não existe representação pura da realidade, muito menos a fotografia. O fotógrafo sempre recorta a realidade da maneira que melhor entender: o enquadramento que usa, a quantidade de luz que deixa entrar, os assuntos que decide focar, tudo isso registra uma interpretação do real. Isso é definido como um “registro expressivo da aparência” e não da realidade histórica, pelo maior estudioso da fotografia no Brasil, Boris Kossoy. Há um trecho de um livro que explica esse pensamento com mais objetividade:

“Pode existir uma distância infinita entre a realidade palpável à frente da objetiva e a realidade criada ou evocada na fotografia. Tanto é possível chegar ao belo partindo do banal, feio ou, até mesmo, repugnante, como a beleza grandiosa de um pôr-do-sol pode levar a apenas um resultado medíocre” (Cláudio Kubrusly, em O que é a fotografia?).

Tem um filme bem legal, e antigo, que mostra como essa confusão das realidades (tomar a foto como prova do real) pode prejudicar uma pessoa. O filme Blow-Up (1966) representa a vida de um fotógrafo que não consegue se comunicar, não consegue se relacionar com pessoas, porque deixou de separar o real do imaginário. Isso tem acontecido bastante com o ser humano… Ao invés de aproveitar a realidade para criar imagens, estamos criando imagens para depois tentar encaixá-las em uma possível realidade que, na verdade, fomos nós mesmos que criamos. Ai que confusão! Heheh… Mas se você assistir ao filme entenderá melhor o que tentei dizer aqui. No YouTube há alguns trechos do filme, mas com o trailer já dá pra ter uma ideia.

Depois de tudo isso existe ainda uma outra realidade, que extrapola a fotografia, a realidade que o observador constrói para si ao ver uma imagem. Essa também depende muito de aspectos pessoais, sociais, culturais etc. Talvez, saber que a fotografia possui duas realidades não te ajude a capturar fotos melhores, mas, com certeza, irá te ajudar a interpretar melhor as fotografias que vê por aí.

Você já parou para pensar sobre tudo o que envolve uma simples fotografia? Refletir pode ser tão prazeroso quanto registrar imagens.

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