Pular para o conteúdo

Louis Compte e a primeira fotografia feita no Brasil (1840)

  • por

A primeira fotografia feita no Brasil de que se tem notícia foi tirada em janeiro de 1840, no Rio de Janeiro, pelo abade francês Louis Compte. Ele estava só de passagem, a bordo de um navio-escola, e trazia na bagagem um daguerreótipo, a invenção que tinha sido apresentada em Paris cinco meses antes. Em menos de nove minutos, registrou o Largo do Paço, no centro da cidade, diante de uma plateia que não acreditava no que via.

ItemO que se sabe
QuemAbade Louis Compte, capelão francês
Quando16 ou 17 de janeiro de 1840 (as fontes divergem)
OndeHospedaria Pharoux, de frente para o Largo do Paço, Rio de Janeiro
O que apareceu na imagemO chafariz do Largo do Paço, a Praça do Peixe e o Mosteiro de São Bento, segundo o jornal da época
Como chegouNa corveta francesa L’Orientale, um navio-escola em viagem ao redor do mundo
TécnicaDaguerreótipo, imagem única sobre placa de cobre prateada

A notícia chegou antes da câmera

Em 1839, os jornais do Rio já falavam do daguerreótipo, mas por enquanto era só teoria: ninguém no Brasil tinha visto um funcionando. Por isso a demonstração de Compte foi um acontecimento. O Jornal do Commercio contou assim:

Finalmente passou o daguerreótipo para cá os mares, e a fotografia, que até agora só era conhecida no Rio de Janeiro por teoria (…). É preciso ver a coisa com seus próprios olhos para se fazer ideia da rapidez e do resultado da operação. Em menos de nove minutos, o chafariz do Largo do Paço, a praça do Peixe, o mosteiro de São Bento (…) se acharam reproduzidos com tal fidelidade, precisão e minuciosidade, que bem se via que a coisa tinha sido feita pela própria natureza, e quase sem a intervenção do artista.

Jornal do Commercio, janeiro de 1840

Repare no final: “feita pela própria natureza, e quase sem a intervenção do artista”. Essa ideia, a de que a foto se faz sozinha, nasceu junto com a fotografia e nunca mais foi embora. Ela explica tanto o encanto daquela plateia quanto a desconfiança que, até hoje, muita gente tem de chamar fotografia de arte.

Largo do Paço, no Rio de Janeiro, em daguerreótipo de 1840 atribuído a Louis Compte, a primeira fotografia feita no Brasil
O Largo do Paço, no Rio de Janeiro, em daguerreótipo de 1840 atribuído a Louis Compte.

Dom Pedro II, o imperador fotógrafo

Três dias depois, Compte repetiu a demonstração no Palácio de São Cristóvão para o imperador, que tinha 14 anos. Dom Pedro II ficou tão impressionado que, em março de 1840, comprou um daguerreótipo para si. Por isso é lembrado como um dos primeiros brasileiros a fotografar.

O encanto durou a vida inteira. O imperador formou uma das maiores coleções de fotografia do século 19, com imagens do Brasil e do mundo. Ele a doou à Biblioteca Nacional, e hoje ela é conhecida como Coleção Dona Thereza Christina Maria, reconhecida pela Unesco no programa Memória do Mundo.

Câmera de daguerreótipo de 1839, do tipo que Louis Compte trouxe ao Rio de Janeiro
Câmera de daguerreótipo de 1839, do mesmo tipo da que Compte trouxe ao Rio.

E antes de Compte?

Compte fez a primeira fotografia no Brasil, mas não foi o primeiro a inventar fotografia aqui. Desde 1833, o francês Hercule Florence, que morava na vila de São Carlos (hoje Campinas), fazia experiências com câmara escura e papel tratado com sais de prata, sem saber nada do que acontecia na Europa. Conto essa história no post sobre a primeira fotografia do mundo.

Um país que adotou a fotografia depressa

Num país em que pouca gente sabia ler, a fotografia se espalhou rápido entre quem podia pagar por ela. Retratistas estrangeiros abriram estúdios no Rio na década de 1840, e logo a fotografia passou a registrar a cidade, a família imperial e, mais tarde, a própria história do país. É uma trajetória que passa por nomes como os pioneiros do fotojornalismo brasileiro e chega a Chico Albuquerque, o pioneiro da fotografia publicitária.

Quando penso naquela manhã de janeiro de 1840, imagino a cena: gente se acotovelando na janela da hospedaria para ver uma imagem aparecer numa placa de metal. Quase duzentos anos depois, fazemos o mesmo gesto, só que olhando para a tela do celular.

Para ir além

Quem estudou a fundo a fotografia do século 19 no Brasil foi o historiador Boris Kossoy. Este livro dele é um bom começo:

Um clássico de Boris Kossoy sobre como ler uma fotografia como documento histórico.

Como associada da Amazon, recebo por compras qualificadas.

Deixe sua opinião!

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *