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Fernando Pessoa e o processo de interpretação de símbolos

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Conteúdo atualizado há 6 meses

Passeando pelo site Domínio Público encontrei um texto que gostei muito. Trata-se de uma reflexão que Fernando Pessoa fez a respeito do processo de interpretação que as pessoas sofrem ao observar um símbolo. O texto é uma introdução de uma série de poesias que ele escreveu sobre Portugal.

O que me chamou atenção foi a simplicidade com que ele explica uma parte de uma teoria sígnica (não estou falando de astrologia!) que é ensinada, às vezes, de maneira tão complexa. Decidi compartilhar com vocês porque acho importante todo fotógrafo ter um pensamento crítico sobre interpretações e significados.

Quem já estudou um pouquinho sobre teoria da Semiótica sabe que as palavras são símbolos, e esta foi a inspiração de Fernando Pessoa neste poema que deixei em destaque mais à frente neste post. Mas as fotos se encaixam em outro tipo de signo, porque a fotografia é um ícone na perspectiva da semiótica. Isso porque uma foto tem semelhança direta com o que foi fotografado, é uma “cópia” da realidade.

Por isso, quero destacar este poema de Fernando Pessoa, que trata de símbolos, mas que também nos ajuda a refletir sobre as infinitas interpretações fotográficas dentro das tantas cabeças pensantes a observar imagens.

Leia com atenção e inspire-se!

fernando-pessoa-sobre-fotografia
Retrato em preto e branco de Fernando Pessoa

Mensagem, por Fernando Pessoa


O entendimento dos símbolos e dos rituais (simbólicos) exige do intérprete que possua cinco qualidades ou condições, sem as quais os símbolos serão para ele mortos, e ele um morto para eles.

A primeira é a simpatia; não direi a primeira em tempo, mas a primeira conforme vou citando, e cito por graus de simplicidade. Tem o intérprete que sentir simpatia pelo símbolo que se propõe interpretar.

A segunda é a intuição. A simpatia pode auxiliá-la, se ela já existe, porém não criá-la. Por intuição se entende aquela espécie de entendimento com que se sente o que está além do símbolo, sem que se veja.

A terceira é a inteligência. A inteligência analisa, decompõe, reconstrói noutro nível o símbolo; tem, porém, que fazê-lo depois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia no exame dos símbolos, é o de relacionar no alto o que está de acordo com a relação que está embaixo. Não poderá fazer isto se a simpatia não tiver lembrado essa relação,  se a intuição a não tiver estabelecido. Então a inteligência, de discursiva que naturalmente é, se tornará analógica, e o símbolo poderá ser interpretado.

A quarta é a compreensão, entendendo por esta palavra o conhecimento de outras matérias, que permitam que o símbolo seja iluminado por várias luzes, relacionado com vários outros símbolos, pois que, no fundo, é tudo o mesmo. Não direi erudição, como poderia ter dito, pois a erudição é uma soma; nem direi cultura, pois a cultura é uma síntese; e a compreensão é uma vida. Assim certos símbolos não podem ser bem entendidos se não houver antes, ou no mesmo tempo, o entendimento de símbolos diferentes.

A quinta é a menos definível. Direi talvez, falando a uns, que é a graça, falando a outros, que é a mão do Superior Incógnito, falando a terceiros, que é o Conhecimento e a Conversação do Santo Anjo da Guarda, entendendo cada uma destas coisas, que são a mesma da maneira como as entendem aqueles que delas usam, falando ou escrevendo.


A fotografia como janela para a “mensagem interior”

Nessa intersecção entre a fotografia e o poema “Mensagem” de Fernando Pessoa consigo visualizar uma interessante conexão, quando consideramos a fotografia como um ícone. Assim como Pessoa explora as múltiplas camadas de identidade e história de Portugal em seu poema, a fotografia desvela suas próprias camadas de significado, revelando-se como um ícone que retrata a mensagem interior.

A fotografia, enquanto ícone, transcende a mera captura de momentos visuais. Ela se assemelha a uma janela para o passado, oferecendo um vislumbre direto e visual do que já foi. Nesse aspecto, a fotografia encontra eco na busca de Pessoa pela essência da identidade portuguesa ao longo do tempo. Assim como ele examina a história em busca de significado, a fotografia nos permite testemunhar o passado e extrair mensagens ocultas dos instantes congelados.

Da mesma forma que Fernando Pessoa joga com símbolos e imagens poéticas para criar sua narrativa, a fotografia cria suas próprias narrativas visuais através da interpretação do observador. Cada imagem traz consigo uma multiplicidade de significados potenciais, dependendo da perspectiva de quem a observa. Isso se assemelha à interpretação diversificada que o poema “Mensagem” pode suscitar em diferentes leitores.

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No contexto do poema, Portugal é explorado como um ícone da história e da busca por uma identidade profunda. Analogamente, a fotografia assume a forma de ícone, representando momentos que, embora congelados no tempo, podem conter mensagens e histórias valiosas. Para, o vínculo entre a fotografia e o poema está na capacidade de ambos em capturar e comunicar essências ocultas, nos oferecendo a oportunidade de sondar as camadas de significado que se escondem abaixo da superfície.

Concluindo, ao considerar a fotografia como um ícone, podemos notar uma convergência intrigante entre a imagem visual e a palavra escrita. Ambas proporcionam um meio para explorar mensagens interiores e reflexões profundas, transmitindo significados que vão além do aparente. Acredito que esta reflexão que fiz entre a fotografia e o texto “Mensagem” de Fernando Pessoa nos convida a desvendar a complexidade da história, da identidade e das mensagens que permeiam ambas as formas de expressão artística.

Por fim, se você gostou tanto do texto como eu e precisa citar a fonte ou guardar um arquivo para consultar sempre que quiser, basta fazer o download gratuito no site do domínio público, neste link.

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