Em 18 de outubro de 1840, o francês Hippolyte Bayard fotografou a si mesmo como se estivesse morto. Sem camisa, de olhos fechados, recostado numa parede, ele montou a cena de um homem que se afogou de desgosto. No verso da foto, escreveu por quê. É a primeira fotografia encenada da história, e talvez a primeira vez que alguém usou uma foto para contar uma mentira de propósito.

Quem foi Hippolyte Bayard
Bayard nasceu em 20 de janeiro de 1801, em Breteuil, no norte da França, e morreu em 14 de maio de 1887. Trabalhava como funcionário público em Paris e fazia experiências com luz e química nas horas vagas, como tanta gente naqueles anos em que a fotografia estava para nascer.
Em março de 1839 ele conseguiu o que procurava: um processo que fazia a imagem aparecer direto no papel, já em positivo. Ele escurecia uma folha com cloreto de prata, mergulhava em iodeto de potássio, expunha na câmera por cerca de doze minutos e depois lavava e secava. O resultado era uma imagem única, que não podia ser copiada, mas que tinha uma suavidade bem diferente do brilho metálico do daguerreótipo.
Em 24 de junho de 1839, Bayard fez a primeira exposição pública de fotografias do mundo. Isso foi quase dois meses antes de Daguerre apresentar oficialmente o seu processo, em 19 de agosto, data que hoje é o Dia Mundial da Fotografia.
Por que Bayard ficou de fora
O astrônomo François Arago, que tinha muito peso na Academia de Ciências e era amigo de Daguerre, convenceu Bayard a adiar o anúncio da sua invenção. Enquanto isso, Daguerre ganhou o apoio do governo francês, que comprou os direitos do daguerreótipo e pagou pensões vitalícias a ele e ao filho de Niépce. Bayard recebeu, no máximo, uma pequena ajuda para comprar equipamento. Só apresentou os detalhes do processo à Academia em fevereiro de 1840, quando o mundo já falava em daguerreótipo.
Foi a resposta a isso que virou história. Bayard fotografou o próprio “cadáver” e escreveu no verso:
O cadáver que vocês estão vendo é o do senhor Bayard, inventor do procedimento cujos maravilhosos resultados vocês acabam de ver. (…) O governo, que deu muito ao senhor Daguerre, disse que nada podia fazer pelo senhor Bayard, e o infeliz se afogou.
Hippolyte Bayard, no verso da foto, 1840
Primeiro autorretrato? Não exatamente
Muita gente (inclusive este blog, numa versão antiga deste post) chama a foto de Bayard de “primeiro autorretrato do mundo”. Não é. Um ano antes, em outubro de 1839, o americano Robert Cornelius fez um autorretrato em daguerreótipo na frente da loja da família, na Filadélfia. O pioneirismo de Bayard é outro, e mais curioso: ele fez a primeira foto encenada, uma ficção construída para a câmera.
O que veio depois
Bayard não se afogou, claro. Continuou fotografando por décadas, passou a usar outros processos e foi um dos fundadores da Société française de photographie, uma das associações de fotografia mais antigas do mundo e que existe até hoje. Em 1851 foi um dos fotógrafos escolhidos pela Comissão de Monumentos Históricos para documentar a arquitetura do país, nas chamadas Missões Heliográficas. E sugeriu uma solução que fotógrafos de paisagem usaram por muito tempo: juntar dois negativos, um exposto para o céu e outro para a terra, numa só imagem.
A primeira mentira fotográfica
Gosto dessa história porque ela desmonta uma ideia que ainda repetimos: a de que a fotografia, ao contrário da pintura, mostra a verdade. Um ano depois de nascer, ela já estava sendo usada para encenar uma morte que não aconteceu. E encenada com ironia, como protesto, por alguém que conhecia muito bem o meio.
A fotografia mal tinha nascido e já mostrava que podia mentir.
Hoje, quando discutimos imagens feitas por inteligência artificial que se passam por fotos (contei um caso famoso nas curiosidades sobre a fotografia), vale lembrar de Bayard. A pergunta “isso aconteceu mesmo?” acompanha a fotografia desde o começo. O que muda é a facilidade de fabricar a resposta.
Para entender o contexto em que Bayard, Daguerre e Niépce disputavam a invenção, leia também a história da primeira fotografia do mundo e a do óptico Charles Chevalier, que ligou os dois primeiros.

Posso repassar no Fotografia DG?
Olá, Alexandre!
Fique à vontade! 🙂
Só peço que inclua fonte original com link, ok?
Abs
OK! =)
Olá, Eliane!
Estou descobrindo o Fós Grafê e tenho grande interesse em conhecer mais perspectivas sobre história da fotografia. Já dei aula de História da Imagem e sempre procurei ampliar meus conhecimentos sobre o assunto. Aqui encontrei muito material de qualidade. Continue assim!
Tenho meu próprio site, em que publico críticas de cinema e mantenho alguns outros projetos, entre os quais está o de escrever sobre 1001 fotografias para ver antes de morrer, que comecei a colecionar sem pretensões muito grandes em http://www.incinerrante.com/1001-fotografias-para-ver-antes-de-morrer/
Um dos textos já publicados nesse projeto é sobre a fotografia de Bayard que você comenta nesse post: http://www.incinerrante.com/textos/autorretrato-afogado-1840-de-hippolyte-bayard/
Penso que seria interessante estabelecer um diálogo mais amplo e, por isso, gostaria de convidá-la a publicar um guest post no incinerrante. Entre em contato por email se tiver interesse.
Em todo caso, obrigado pela atenção!
Olá, Marcelo!
Fico muito feliz em saber que você, como professor-conhecedor-admirador de imagens, tenha apreciado o meu blog. A história da imagem também me encanta, por isso este é um dos temas que eu mais gosto de apresentar por aqui. Obrigada!
Visitei seu site e achei tudo muito interessante. A maneira como escreve e o conteúdo que apresenta são excelentes! Eu ficaria lisonjeada em poder participar do seu espaço. Podemos conversar melhor por e-mail mesmo, assim você me explica melhor o que deseja. Quem sabe você possa produzir um texto especial para o Fós Grafê! 🙂
Obrigada pelo contato e continue acompanhando o blog!
Um abraço
Eu ficaria muito feliz publicando algo no Fós Grafê, Eliane! Assim como estou realmente feliz por você ter gostado do que encontrou no incinerrante. Vamos conversar por email para aprofundar o diálogo. Por meio desse comentário você já tem meu endereço?