O flash é um pequeno relâmpago controlado. Uma bateria carrega um capacitor, o capacitor descarrega de uma vez num tubo cheio de gás xenônio, e o gás solta um clarão que dura entre um milésimo e um vinte milésimo de segundo. É rápido o bastante para congelar uma gota caindo, e forte o bastante para iluminar uma sala inteira. Neste post eu explico como isso funciona, conto como os fotógrafos iluminavam o escuro antes da eletrônica e mostro o que muda na prática quando você entende essa física.

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Como o flash funciona por dentro
As pilhas ou a bateria sozinhas não têm força para acender a lâmpada do flash de uma vez. Por isso o flash tem um capacitor, uma peça que acumula energia aos poucos e solta tudo num instante. Aquele zumbido agudo que você ouve quando liga o flash é o circuito carregando o capacitor.
Quando você aperta o disparador, a câmera abre o obturador e manda um sinal ao flash. Um pulso de alta tensão faz o gás xenônio dentro do tubo conduzir eletricidade, e a energia guardada no capacitor atravessa o gás de uma vez, produzindo o clarão. Depois o capacitor volta a carregar, e é por isso que o flash às vezes não dispara de novo logo em seguida.
| Característica | O que isso significa na prática |
|---|---|
| Duração do clarão: de cerca de 1/1.000 a 1/20.000 de segundo (ou menos) | O flash congela movimento melhor do que o próprio obturador |
| Cor da luz: perto de 5.500 K, como a luz do dia | Com o balanço de branco em “luz do dia”, as cores saem naturais |
| Tempo de recarga: de menos de 1 a alguns segundos | Em sequência rápida, espere a luz de “pronto” acender |
| Potência: indicada pelo número guia | Diz até que distância o flash ilumina com cada abertura |
Se você quer fazer a conta de alcance, explico o número guia do flash com calculadoras num post só sobre isso.
Do pó de magnésio ao xenônio
A história do flash é a parte de que eu mais gosto, porque mostra quanto custava, literalmente, fotografar no escuro.
| Ano | Como se fazia luz |
|---|---|
| 1887 | Os alemães Adolf Miethe e Johannes Gaedicke criam o pó de flash: magnésio misturado a um oxidante, queimado numa bandeja. Explosão, fumaça e, às vezes, queimaduras |
| Fim da década de 1880 | O fotógrafo e jornalista Jacob Riis usa o pó de flash para mostrar os cortiços de Nova York, num dos primeiros trabalhos de fotografia social |
| 1929 | Surge a lâmpada de flash descartável: um bulbo de vidro com filamentos metálicos que queimam uma única vez |
| Década de 1930 | Harold Edgerton, professor do MIT, desenvolve o flash eletrônico de repetição, capaz de congelar balas e gotas no ar |
| 1965 | A Kodak lança o flashcube, um cubinho com quatro lâmpadas que girava a cada foto |
| Hoje | Flashes eletrônicos de xenônio nas câmeras e lâmpadas de LED nos celulares |
O “flash” do celular nem sempre é flash
A maioria dos celulares usa um LED, que é uma luz contínua acesa por um instante, e não um clarão de xenônio. A luz do LED é muito mais fraca e mais longa. Por isso a foto de celular com “flash” quase sempre sai tremida ou com o fundo preto: não é falta de talento, é física.
A lei do inverso do quadrado
A luz do flash se espalha como um cone. Quanto mais longe vai, maior a área que precisa iluminar, e menos luz chega a cada ponto. A regra que descreve isso foi enunciada pelo astrônomo Johannes Kepler em 1604: a intensidade da luz cai com o quadrado da distância. Na prática: se você dobra a distância, chega só um quarto da luz. Triplicou a distância, chega um nono.

É essa regra que explica as duas falhas mais comuns da foto com flash: a pessoa da frente estourada de branco e a do fundo quase no escuro, e o fundo preto atrás de quem foi fotografado. Entre o primeiro plano e o fundo, a diferença de luz é enorme. No vídeo abaixo, o fotógrafo Renato Rocha Miranda mostra isso muito bem.
Tipos e modos de flash
| Tipo | Para que serve | Limite |
|---|---|---|
| Embutido (na câmera) | Emergência e preenchimento de sombras em dia de sol | Pouca potência e luz dura, sempre de frente |
| Externo (speedlight) | Eventos, retratos, uso rebatido no teto ou na parede | Precisa de pilhas e de algum aprendizado |
| De estúdio | Retrato, produto, moda | Pesado e caro, depende de tomada ou bateria grande |
- TTL: a câmera dispara um pré-flash, mede a luz através da lente e calcula a potência. Bom para eventos, em que não dá tempo de ajustar nada.
- Manual: você escolhe a potência (1/1, 1/2, 1/4…). O resultado é o mesmo foto após foto, por isso é o preferido em estúdio.
- Sincronia em alta velocidade (HSS): permite usar o flash com velocidades mais rápidas que a de sincronia, em troca de bem menos potência.
Sobre a velocidade de sincronia: a maioria das câmeras com obturador de cortina só sincroniza o flash até algo entre 1/160 e 1/250 de segundo, dependendo do modelo (o manual diz qual é a sua). Acima disso, uma faixa escura aparece na foto, porque a cortina do obturador cobre parte do sensor no instante do clarão. Câmeras com obturador central sincronizam em qualquer velocidade.

Como usar o flash sem estragar a foto
Juntei aqui as dicas de dois posts antigos do blog sobre o uso do flash, algumas inspiradas no livro Escola de Fotografia, de José Antonio Ramalho e Vitché Palacin:
- Rebata a luz. Aponte o flash externo para o teto ou para uma parede clara, a uns 45 graus. A luz volta espalhada e suave. Sem teto, um lençol branco ou uma placa de isopor fazem o mesmo papel.
- Tire o flash de cima da lente. Com um cabo ou um disparador sem fio, coloque o flash ao lado. Acaba o olho vermelho e a luz ganha volume.
- Lembre que toda foto com flash tem duas exposições. O clarão ilumina o que está perto; a velocidade do obturador controla quanto da luz ambiente entra. Velocidade mais lenta (com tripé) traz o fundo de volta.
- Use flash de dia. Com o sol atrás da pessoa, o flash preenche o rosto sem apagar o céu.
- Cuidado com superfícies que refletem. Perto de vidro, espelho ou parede brilhante, fique em ângulo, para o reflexo não voltar direto para a lente.
- Espere a recarga e leve pilhas extras. O flash sem carga dispara fraco ou nem dispara.
- Às vezes, não use flash. Uma exposição longa com tripé, ou uma janela, pode dar uma luz muito mais bonita.
O flash não serve para clarear a foto. Serve para escolher de onde vem a luz.
Essa é a mudança de cabeça que mais faz diferença. Enquanto o flash é “aquilo que liga quando está escuro”, a foto sai chapada. Quando ele vira uma fonte de luz que você posiciona, como a janela de um pintor, a foto ganha forma. Se quiser ir além, veja os equipamentos básicos de iluminação em estúdio.
Como escolher um flash
O que eu olharia antes de comprar: compatibilidade com a sapata e o sistema da sua câmera (TTL de Canon não funciona em Nikon, por exemplo), cabeça que gira para cima e para os lados (sem isso não dá para rebater) e disparo sem fio, para poder tirar o flash da câmera depois. Para quem está começando, um flash manual simples ensina mais que um automático caro.
Flash manual de entrada, com cabeça que gira e transmissor para disparo sem fio. Bom para aprender a controlar a potência sem depender do automático. Confira a compatibilidade com a sua câmera.
Flash com TTL para câmeras Canon, para quem quer o automático em eventos sem abrir mão do modo manual.
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