O diafragma é a abertura ajustável dentro da objetiva, formada por lâminas de metal que se fecham em círculo, como a íris do olho. Ele faz duas coisas ao mesmo tempo: controla quanta luz chega ao sensor e decide quanto da cena fica nítido na frente e atrás do ponto de foco. O tamanho da abertura é indicado pelo número f (f/1.8, f/4, f/11…), e é aqui que quase todo mundo se confunde: quanto menor o número, maior a abertura.

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Por que o número f é “ao contrário”
Porque ele não é uma medida da abertura, e sim uma divisão. O número f é a distância focal da objetiva dividida pelo diâmetro da abertura. Numa objetiva de 50 mm, f/2 significa uma abertura de 25 mm (50 ÷ 2); f/8 significa uma abertura de pouco mais de 6 mm (50 ÷ 8). Como o diâmetro está “embaixo” da fração, número maior quer dizer buraco menor.
A vantagem dessa conta é que f/8 deixa passar a mesma quantidade de luz em qualquer objetiva, seja de 24 mm ou de 300 mm. Por isso a fotometria funciona igual com qualquer lente. É uma das ideias mais elegantes da fotografia, e explica por que ninguém mede a abertura em milímetros.
Um pouco de história
As primeiras câmeras tinham uma abertura fixa. Em 1858, o inglês John Waterhouse propôs placas de metal com furos de tamanhos diferentes, encaixadas numa fenda da objetiva. Para mudar a abertura, trocava-se a placa. O diafragma de lâminas que abre e fecha, que hoje está em toda objetiva, veio depois e tornou o ajuste contínuo.
A escala de aberturas
Os números da escala parecem aleatórios, mas seguem uma regra: cada um é o anterior multiplicado por cerca de 1,4 (raiz quadrada de 2). E cada passo, chamado de “ponto”, corta a luz pela metade.
| Abertura | Luz em relação a f/1.4 | Profundidade de campo | Bom para |
|---|---|---|---|
| f/1.4 | 100% | Muito rasa | Pouca luz, fundo bem desfocado |
| f/2 | 1/2 | Rasa | Retrato, ambientes internos |
| f/2.8 | 1/4 | Rasa a média | Retrato, eventos |
| f/4 | 1/8 | Média | Retrato em grupo pequeno |
| f/5.6 | 1/16 | Média | Uso geral, rua |
| f/8 | 1/32 | Ampla | Rua, paisagem, grupos |
| f/11 | 1/64 | Muito ampla | Paisagem |
| f/16 | 1/128 | Muito ampla | Paisagem com muita luz, estrelas no sol |
| f/22 | 1/256 | Máxima | Só quando precisa (perde nitidez) |

A abertura trabalha junto com a velocidade do obturador e o ISO. Se você fecha um ponto de diafragma, precisa compensar com o dobro do tempo de exposição ou com o dobro do ISO para a foto continuar com o mesmo brilho.
Profundidade de campo: o que fica nítido
Profundidade de campo é a faixa da cena que parece nítida, à frente e atrás do ponto onde você focou. Três coisas a controlam:
- Abertura: mais aberta (f/1.8), faixa mais estreita; mais fechada (f/11), faixa mais larga.
- Distância até o assunto: quanto mais perto, mais estreita a faixa. Por isso a macro desfoca tanto, mesmo em f/8.
- Distância focal: com o assunto do mesmo tamanho na foto, teleobjetivas parecem desfocar mais o fundo, porque mostram um pedaço menor e mais ampliado dele.

Como escolher a abertura
Minha sugestão prática é começar pelo modo prioridade de abertura (A ou Av na câmera): você escolhe o diafragma e a câmera calcula a velocidade. Depois, pense na pergunta certa: o que eu quero nítido?
- Só o rosto, fundo desfocado: f/1.8 a f/2.8. Foque nos olhos.
- Grupo de pessoas: f/4 a f/5.6, para ninguém da segunda fila sair borrado.
- Rua e cotidiano: f/8, que deixa quase tudo nítido e perdoa erros de foco.
- Paisagem, do primeiro plano ao horizonte: f/8 a f/11, com tripé se a luz estiver baixa.

Um uso criativo de que gosto: o efeito palha de aço (steel wool), em que se gira um fio de palha de aço em brasa à noite e se fotografa com exposição longa. Aqui o diafragma vai fechado, em f/8 ou f/11, porque as faíscas são muito brilhantes e a exposição dura vários segundos. Com tripé, cabo disparador e muito cuidado com o fogo.

Erros comuns
- Abrir demais no retrato. Em f/1.4 de perto, a faixa nítida pode ter menos de um centímetro: o olho fica em foco e a ponta do nariz, não. Às vezes f/2.8 é mais bonito.
- Fechar demais na paisagem. A partir de f/11 ou f/16, dependendo do sensor, a difração (a luz se espalhando ao passar por um furo muito pequeno) começa a tirar nitidez da foto inteira. Fechar mais nem sempre deixa mais nítido.
- Esquecer o resto da exposição. Fechou o diafragma, a velocidade cai. Sem tripé, a foto treme.
- Achar que a lente rende o mesmo em todas as aberturas. A maioria das objetivas fica mais nítida uns dois pontos abaixo da abertura máxima. Uma f/1.8 costuma estar no seu melhor por volta de f/4 a f/5.6.
E o celular?
A maioria dos celulares tem abertura fixa, normalmente bem grande (f/1.6 a f/2.2). Mesmo assim, como o sensor e a distância focal são minúsculos, a profundidade de campo é enorme e quase nada fica desfocado. O desfoque do “modo retrato” é feito por software: o celular calcula a distância de cada ponto e borra o fundo depois. Por isso às vezes ele come um pedaço do cabelo ou da orelha.
O desfoque não é um enfeite. É uma decisão sobre o que o leitor da foto deve olhar primeiro.
Para aproveitar melhor tudo isso, vale conhecer a objetiva que você está usando e manter o equipamento limpo, porque poeira e umidade também atrapalham o diafragma (explico em como cuidar do equipamento fotográfico).
Para sentir na prática o que uma abertura grande faz: f/1.8 desfoca o fundo de verdade. Para câmeras Canon com encaixe EF.
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