Charles Louis Chevalier (1804 a 1859) foi o óptico parisiense que fez as lentes das primeiras câmeras fotográficas e, de quebra, apresentou um inventor ao outro. Foi pela loja dele e do pai que Louis Daguerre soube das experiências de Nicéphore Niépce, e foi uma lente Chevalier que equipou a câmera do daguerreótipo, em 1839. Sem ele, a história da fotografia teria os mesmos personagens, mas talvez outra ordem.

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Uma família de ópticos
Charles nasceu em Paris em abril de 1804, filho de Vincent Chevalier, que já tinha uma oficina de instrumentos ópticos conhecida na cidade, no Quai de l’Horloge, às margens do Sena. Pai e filho faziam lentes, microscópios, lunetas e câmaras escuras, que na época eram vendidas a desenhistas e curiosos. Em 1832, Charles abriu a própria casa, e a loja virou ponto de encontro de cientistas, artistas e inventores.
| Item | O que se sabe |
|---|---|
| Nome | Charles Louis Chevalier |
| Vida | Paris, 1804 a 1859 |
| Ofício | Óptico, fabricante de lentes, microscópios e câmaras escuras |
| Papel na fotografia | Fez lentes para Niépce, pôs Daguerre em contato com ele e criou a lente da câmera do daguerreótipo |
| Invenções | Lente acromática para o daguerreótipo (1839), lente combinada “Photographe à verres combinés” e câmera dobrável “Le Photographe” (1840) |
O elo entre Niépce e Daguerre
Em meados da década de 1820, um primo de Nicéphore Niépce, o coronel Niépce, foi à loja dos Chevalier comprar lentes para as câmaras escuras com que o inventor fazia experiências. Na conversa, contou o que o primo estava tentando fazer: fixar com luz a imagem projetada na câmara escura. As fontes divergem sobre o ano exato, entre 1825 e janeiro de 1826.
Os Chevalier tinham outro cliente com a mesma obsessão: Louis Daguerre, pintor de cenários e criador do Diorama, um espetáculo de grandes telas iluminadas que fazia sucesso em Paris. Foram eles que passaram a Daguerre o endereço de Niépce. Daguerre escreveu, os dois se encontraram em 1827 e viraram sócios em 1829. O resto você conhece pelo post da primeira fotografia do mundo.
Uma conversa de balcão
A sociedade que deu origem ao daguerreótipo, e ao Dia Mundial da Fotografia, começou com um comentário feito numa loja de lentes. Nenhum dos dois inventores tinha como saber da existência do outro sem esse intermediário.

A lente do daguerreótipo
Quando o daguerreótipo foi lançado comercialmente, em 1839, a câmera oficial, fabricada por Alphonse Giroux, usava uma lente de Chevalier. Era uma lente acromática, feita de dois tipos de vidro colados para corrigir as franjas coloridas que aparecem nas bordas das imagens, com cerca de 40 centímetros de distância focal e um diafragma pequeno na frente, equivalente a f/16.
Esse diafragma pequeno deixava a imagem nítida de ponta a ponta, mas cobrava um preço alto: entrava pouca luz, e a exposição levava minutos. Para paisagens e prédios, tudo bem. Para gente, era uma tortura. Ninguém fica parado tanto tempo sem piscar, coçar o nariz ou desistir. Se quiser entender por que um diafragma pequeno escurece tanto a imagem, explico no post sobre diafragma na fotografia.
A lente para retratos e a concorrência
Chevalier tentou resolver o problema em 1840 com a “Photographe à verres combinés”, um conjunto de lentes que podia ser montado de formas diferentes para paisagem ou retrato. Pelo aperfeiçoamento, recebeu um prêmio da Société d’encouragement pour l’industrie nationale. No mesmo ano lançou o “Le Photographe”, uma das primeiras câmeras que se dobravam para caber numa caixa.
Só que, também em 1840, um matemático de Viena, Joseph Petzval, calculou uma lente de retrato muito mais luminosa, que reduzia a exposição de minutos para segundos. A lente Petzval tomou conta dos estúdios de retrato do mundo inteiro e foi usada por décadas. Chevalier seguiu fazendo lentes e instrumentos de precisão até morrer, em novembro de 1859, mas o título de lente que popularizou o retrato ficou com o concorrente.

Os inventores invisíveis
A história da fotografia costuma ser contada pelos nomes que ficaram no processo: Niépce, Daguerre, Talbot. Chevalier entra quase sempre como nota de rodapé, o fornecedor. Acho essa leitura injusta. A fotografia é química e é óptica, e a parte óptica, a que forma a imagem, já estava madura quando a química chegou. Sem lentes boas, nenhuma das primeiras placas teria uma imagem para registrar.
Toda foto começa numa lente. A história da fotografia também.
É o mesmo raciocínio de hoje: discutimos megapixels e sensores, mas o que define o desenho da imagem continua sendo a objetiva. Chevalier estava no lugar certo, com o conhecimento certo, num momento em que poucas pessoas entendiam o que duas experiências isoladas podiam virar juntas. Por isso, para mim, ele merece um lugar ao lado dos inventores, e não atrás do balcão. A história da fotografia completa mostra quantas peças precisaram se encaixar.
Para ir além
Um panorama ilustrado da história da fotografia, das primeiras câmeras e lentes do século 19 até o digital.
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