A primeira fotografia do mundo que chegou até nós se chama Vista da janela em Le Gras. Foi feita pelo francês Joseph Nicéphore Niépce em 1827, da janela do andar de cima da casa dele, em Saint-Loup-de-Varennes, no interior da França. Não é uma imagem bonita, nem nítida, e não tem ninguém nela: são telhados, uma árvore e um pedaço de céu. E mesmo assim é uma das imagens mais importantes que existem.
Este foi o primeiro post do Fós Grafê, em 2007. Achei justo que o blog começasse pela primeira foto. Quase vinte anos depois, reescrevi tudo, porque a história dessa imagem é bem mais interessante (e mais estranha) do que eu contei naquela época.

Conteúdo deste post
Ficha da primeira fotografia do mundo
| Item | O que se sabe |
|---|---|
| Nome | Vista da janela em Le Gras (Point de vue du Gras) |
| Autor | Joseph Nicéphore Niépce (1765 a 1833) |
| Data | 1827 (por muito tempo foi datada de 1826) |
| Local | Propriedade da família, em Saint-Loup-de-Varennes, França |
| Processo | Heliografia, que Niépce traduzia como “escrita do sol” |
| Suporte | Placa de peltre (liga à base de estanho) de cerca de 16 × 20 cm, coberta com betume da Judeia |
| Exposição | De oito horas a vários dias (veja abaixo) |
| Onde está hoje | Harry Ransom Center, Universidade do Texas, em Austin (EUA). O museu avisa que ela fica fora de exposição de 15 de abril ao início de julho de 2027 |
A primeira que sobreviveu, não a primeira tentativa
Vale ser preciso aqui, porque é onde quase todo texto sobre o assunto escorrega. A Vista da janela em Le Gras não foi a primeira vez que alguém fixou uma imagem com luz. O próprio Niépce fazia experiências desde a década de 1810, e por volta de 1822 já conseguia copiar gravuras com o mesmo método. O problema é que essas primeiras imagens se perderam, desbotaram ou foram destruídas.
Por isso o título correto é outro: é a fotografia mais antiga feita com uma câmera que sobreviveu até hoje, como diz o próprio museu que a guarda. Parece detalhe, mas muda a forma de olhar a história. A fotografia não nasceu num estalo genial. Nasceu de anos de tentativa e erro, e boa parte dos erros sumiu sem deixar imagem.
Como Niépce fez a foto
Niépce partiu de uma câmara escura, uma caixa com uma lente que projeta a imagem de fora numa superfície interna. Pintores já usavam esse aparelho havia séculos para desenhar. A novidade era fazer a imagem ficar.
Ele cobriu uma placa de metal polido com betume da Judeia, uma espécie de asfalto natural dissolvido em óleo de lavanda. O betume tem uma propriedade curiosa: endurece onde a luz bate. Depois da exposição, Niépce lavava a placa com solvente. As partes que tinham recebido luz ficavam presas ao metal, as partes à sombra se dissolviam e deixavam o metal à mostra. O resultado é uma imagem muito sutil, que só se enxerga com a placa inclinada na luz certa, quase como um reflexo.
Oito horas ou vários dias?
Durante décadas repetiu-se que a exposição durou cerca de oito horas, porque o sol aparece iluminando prédios dos dois lados da imagem, como se tivesse andado pelo céu durante a foto. Pesquisas mais recentes, que refizeram o processo de Niépce, concluíram que o betume precisaria de vários dias de luz. É essa a informação que o Harry Ransom Center usa hoje.
A foto que ficou perdida por quase meio século
A parte da história de que eu mais gosto é o que aconteceu com a placa depois.
Em 1827, Niépce viajou para a Inglaterra para visitar o irmão doente e levou algumas heliografias. Lá conheceu o ilustrador botânico Francis Bauer, que o incentivou a apresentar a invenção à Royal Society, a academia de ciências de Londres. Não deu certo: Niépce não quis revelar os detalhes do processo, e a apresentação nunca aconteceu. Ele voltou para a França e deixou as placas com Bauer.
Depois da morte de Bauer, em 1840, a Vista da janela em Le Gras passou de mão em mão. Foi exibida pela última vez em 1905 e então sumiu. Ficou 47 anos sem que ninguém soubesse onde estava, até que o historiador Helmut Gernsheim e a mulher, Alison, a encontraram em 1952. Copiar a imagem foi tão difícil que o laboratório da Kodak teve de fazer várias tentativas, e o próprio Gernsheim retocou uma das cópias para que ela ficasse legível. Por muitos anos, foi só essa versão retocada que o público viu.
Em 1963, a coleção de Gernsheim foi comprada para a Universidade do Texas. Hoje a placa fica no saguão do Harry Ransom Center, em Austin, numa vitrine projetada pelo Getty Conservation Institute, com ar sem oxigênio e monitorado o tempo todo. A primeira fotografia do mundo vive num ambiente mais controlado do que muita UTI.
Quem foi Niépce
Joseph Nicéphore Niépce nasceu em 7 de março de 1765, em Chalon-sur-Saône, numa família abastada. Foi militar por pouco tempo, deixou o exército por problemas de saúde e passou boa parte da vida fazendo experiências com o irmão, Claude, numa propriedade no campo. Inventaram até um motor a combustão interna, o Pyréolophore. A fotografia nasceu desse tipo de curiosidade de inventor, mais do que de uma vontade artística.

Ele interessou-se pela litografia, técnica de impressão que estava na moda, e daí veio a ideia de deixar a própria luz desenhar a imagem. As lentes que usava vinham da oficina dos ópticos Chevalier, em Paris, e foi por meio deles que Louis Daguerre soube das experiências de Niépce. Os dois viraram sócios em 1829. Niépce morreu em 5 de julho de 1833, antes de ver a fotografia ganhar o mundo. Quem levou a fama foi Daguerre.
Em Chalon-sur-Saône há uma estátua de Niépce e um museu com o nome dele, que guarda equipamentos dos seus experimentos. Em 1933, no centenário da morte de Niépce, a revista científica Nature lembrou como essa estátua foi feita, num trecho que resume bem a dívida que temos com ele: “Se cada ser humano que teve motivos para ser grato ao descobridor da fotografia tivesse contribuído para sua obra, o escultor poderia ter sido regiamente recompensado, e a estátua, em vez de bronze, poderia ter sido feita de prata e ouro.” 1

E se a primeira foto fosse brasileira?
Enquanto Niépce e Daguerre trabalhavam na França, um francês que morava no Brasil fazia o mesmo caminho sozinho. Hercule Florence vivia na vila de São Carlos, que hoje é Campinas, no interior de São Paulo. A partir de janeiro de 1833, sem saber de nada do que acontecia na Europa, ele usou uma câmara escura e papel tratado com sais de prata para fixar imagens. Num manuscrito de 21 de janeiro de 1834, escreveu que seria possível photographier, quando a palavra ainda nem circulava entre os pioneiros europeus.
Essa história só foi conhecida porque o historiador brasileiro Boris Kossoy começou a pesquisar os cadernos de Florence em 1972. Em 1976, a pedido dele, o Instituto de Tecnologia de Rochester, nos Estados Unidos, reproduziu os experimentos descritos nos diários e confirmou que funcionavam.
A fotografia foi inventada mais de uma vez, ao mesmo tempo, por gente que nem sabia da existência uma da outra. Uma dessas pessoas estava em Campinas.
Florence não aparece na maioria dos livros estrangeiros, e acho que isso diz muito sobre quem escreve a história. Não é que ele tenha feito a primeira foto do mundo: Niépce chegou antes, e a placa de Le Gras está aí para provar. Mas é um lembrete de que as invenções raramente têm um único pai, e de que o Brasil tem um lugar nessa história que pouca gente conhece. A primeira fotografia feita no Brasil que conhecemos, por outro lado, veio em 1840, pelas mãos de um francês de passagem.
Depois de Niépce: as outras primeiras vezes
| Ano | O que aconteceu |
|---|---|
| 1827 | Niépce faz a Vista da janela em Le Gras |
| 1829 | Niépce e Daguerre viram sócios |
| 1833 | Niépce morre; no Brasil, Hercule Florence começa as experiências com a câmara escura |
| 1839 | O daguerreótipo é apresentado ao mundo em Paris, em 19 de agosto, data que virou o Dia Mundial da Fotografia |
| 1840 | Louis Compte faz a primeira fotografia no Brasil, no Rio de Janeiro; na França, Hippolyte Bayard protesta por ter ficado de fora da história |
| 1861 | James Clerk Maxwell apresenta a primeira fotografia colorida |
| 1888 | A Kodak nº 1 põe a câmera nas mãos de amadores |
Para a história completa, do século 19 até o celular, escrevi um guia sobre a história da fotografia.
O que a primeira foto ainda ensina
O que mais me encanta na Vista da janela em Le Gras é o assunto. Niépce tinha nas mãos a invenção mais importante do século, e o que ele fotografou foi o quintal. Não foi um retrato, um monumento ou uma paisagem famosa. Foi a vista de casa, numa tarde comum (ou em vários dias comuns).
Quase duzentos anos depois, a maior parte das fotos que tiramos ainda é isso: o que está perto, o que vemos da janela, o cotidiano. A diferença é o tempo. Niépce esperou dias por uma imagem. Nós tiramos dezenas por minuto e quase não olhamos para nenhuma. Talvez valha, de vez em quando, fotografar como ele: devagar, sem pressa, achando que aquela imagem pode durar para sempre.
Uma brincadeira com inteligência artificial
Há alguns anos, pedi a uma IA de imagens (o Ideogram) que recriasse o momento em que Niépce fez a foto. O resultado tem erros, claro, mas me surpreendeu ver a máquina desenhar uma câmara escura razoável, coisa que essas ferramentas não conseguiam pouco tempo antes. Fica como curiosidade: a primeira foto do mundo, imaginada pela tecnologia que hoje põe em dúvida o que é uma foto.

Para ir além
Se a história de Hercule Florence te pegou como me pegou, os dois livros abaixo são do Boris Kossoy, o pesquisador que tirou Florence do esquecimento.
O livro em que Boris Kossoy reúne a pesquisa sobre os experimentos de Hercule Florence em Campinas, a partir dos manuscritos do inventor.
Um clássico de Boris Kossoy sobre como ler uma fotografia como documento histórico.
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- JOSEPH Nicéphore Niepce. Nature, v. 132, n. 3322, p. 21, 1933. DOI: 10.1038/132021b0. ↩︎

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